terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Fête des Lumières 2013

Dez de Dezembro de dois mil e treze. Como sou preguiçoso vou colocar uma breve introdução à Festa das Luzes que encontrei na internet:

A cidade de Lyon venera a Virgem Maria desde a Idade Média e diz-se que foi protegida por ela em 1643, ano em que o sul da França sofria com a peste: os escabinos de Lyon, o preboste dos mercadores e os nobres fizeram promessas de homenagear todos anos a Virgem si a epidemia da peste parasse.
Em seguida, uma procissão solene foi organizada todo dia 8 de setembro (e não 8 de Dezembro) pelo município parte da Catedral Saint-Jean com destino à Basílica Notre-Dame de Fourvière. 8 de Setembro é o dia escolhido por Lyon dedicado à consagração à Virgem Maria, sendo também o dia de seu nascimento.
Em 1852, inaugura-se a estátua da Virgem Maria, posicionada sobre a capela da colina de Fourvière. Realizada pelo escultor Joseph-Hugues Fabisch, ela foi proposta por certos nobres lyoneses e seguidores católicos e em seguida sendo aceita pelo cardinal de Bonald em 1850. A inauguração da estátua deveria ter ocorrido em 8 de Setembro de 1852, dia da festa do nascimento da Virgem Maria e data do aniversário do voto dos escabinos de 1643. No entanto, devido ao aumento das águas do rio Saône, a inauguração da estátua teria sido atrasada. A arquidiocese, em acordo com a comissão dos leigos, decidiu então adiar a inauguração à data de 8 de Dezembro.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Festival_das_Luzes_%28Lyon%29

E lá se passou mais uma Festa das Luzes, o tão esperado evento que atrai à volta de dois milhões de turistas a Lyon. Sempre pensei que o número fosse inflacionado, mas depois de estar quase uma hora para ir da ponta de uma rua à outra, concluí que não. Formou-se um enorme aglomerado de pessoas, enlatadas numa das ruas principais, onde até houve ocasião para que alguns habitantes dos prédios confinantes porem música e levarem a multidão a cantar em coro.
Impossível será de ver todas as atracções, mais não se podem falhar certos pontos como Bellecour, Place des Terraux, Vieux Lyon e Croix-Rousse.
É portanto indispensável levar uma grande dose de paciência, tempo e boa disposição. Tudo isto, claro, sempre acompanhado de um vin chaud.

As fotos não são as melhores do mundo, sendo certo que os vídeos demonstram muito melhor a envolvente e os espectáculos. Os vídeos, esses, ficarão para depois.

Bellecour


Place des Terraux

Hotel de Ville

Hotel de Ville

Hotel de Ville

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Parc Tête d'Or

Adicionar legenda



Croix-Rousse

Croix-Rousse

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Il neige à Lyon

Vinte e dois de Novembro de dois mil e treze. A neve chegou a Lyon. Com ela o frio cada vez mais sufocante. A sua beleza, à qual muitos não estão habituados, como eu, traz por vezes um rasgo de alegria e afasta os pensamentos mais frios. Aqui ela cai, uns dias mais envergonhados que outros, uns dias mais intensos que outros. Todos esses dias estarei aqui eu a vê-la cair, com um coração por vezes aquecido pela sua beleza, por vezes arrefecido pela saudade.








domingo, 10 de novembro de 2013

Oui, c'est ça

Dez de Novembro de dois mil e treze. A vida tem destas coisas. Vamos para o estrangeiro, conhecemos gente nova. Muita gente. E eu, que no meio disto, habito com duas pessoas muito especiais; muito pessoas. A convivência com os outros é a melhor fonte de conhecimento durante toda a vida. Com elas aprendemos o que é isto da vida, aprendemos a vivê-la e ajudamos a vivê-la. Aprendemos que a partilha é a coisa mais bela deste mundo. Aprendemos que ela nos faz humanos. Aprendemos que realmente aquela ideia desesperada de que existe um deus, não passa de uma ideia desesperada se soubermos viver com o outro.
Aprendemos com isto que o mundo é tão mais diverso do que qualquer dias poderemos experiênciar. E por estes caminhos encontrei e fiz amizades com as pessoas mais interessantes. Inclusive uma das pessoas com quem moro, um alemão de vinte e cinco anos, que faz tarot todas as manhãs, que estuda literatura do século dezoito sobre masturbação; um ser humano cheio de vontade de partilha e de generosidade. No meio disto submeti-me à experiência do tarot. Materialista que sou não acredito em sinais transcendentes, mas já agora partilho esta curiosidade para aqueles que possam acreditar ou, não acreditando, estejam sempre abertos àquilo que é novo. É nisto que se resume a vida.

A primeira carta, será aquilo que represento para os outros. Um sinal exterior. A segunda carta, aquilo que representa a minha alma. A terceira carta, caracteriza o meu ano.




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Adieu

Ninguém fica indiferente à beleza. É humano. Que tipo de beleza, aí já não sei. A mim a beleza que mais me toca é a das palavras, das letras conjugadas. Mais depressa chorarei com uma frase do que com uma música, um filme, um quadro. Não há beleza como esta, a das palavras.
Aqui partilho a beleza dada à luz por um génio e que, como tudo de bom que há na vida, é criminoso não partilhar. Espero, assim, que sintam este texto tanto como eu. Espero que tenham, verdadeiramente, esse prazer. 
E se assim escreve quem está em demência, não seria este um mundo tão mais belo se todos dementes estivéssemos? 
Boa noite, e vivam, vivam bem esta vida.

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.
  
A carta de despedida, de Gabriel García Marquéz

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Lyon (revisitée)

Quatro de Novembro de dois mil e treze. Revisitou-se Lyon, pela terceira vez. E não cansa. Sempre se encontra algo novo, uma outra rua, uma outra cara que por nós passa, uma outra casa. Uma árvore não vista, um café, uma curva, uma pedra. Um muro que passou, uma fonte que deixou de estar calada, uma brisa que se encontrou connosco.
Lyon, essa, será eterna, assim como as suas paragens. Eterna não será a forma como para ela se olha. A cada vez, olha-se com olhos de olhar, depois de ver, de reparar. Depois com olhos de atenção, de ternura, de curiosidade, perplexidade, leviandade. Tudo depende.
E se quatro olhos vêem melhor que dois, diferentes olhos nunca vêem o mesmo. Diferentes pessoas nunca cheiram o mesmo. Aquele folhado acabado de fazer cujo cheiro passa naquele preciso momento já é diferente daquele que passará um segundo depois. Cada experiência é, por isso, única. Cada passo é um passo que jamais voltaremos a dar e que ninguém dará como nós demos. Cada cidade é diferente e igual ao mesmo tempo. Cada riso de amizade, cada gole de cerveja, cada garfada, cada abraço. É tudo único e sem exemplar. Cada experiência é inicio, desenvolvimento e conclusão. Mas não é por isso que deve deixar de ser partilhada.




















quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Carta a um filho que emigrou

Porque tudo isto não é uma viagem de recreio. É, antes, um estágio para a emigração, o que aqui faço. Um aquecimento antes de um exercício que se prevê duro, mas sem alternativas. Porque a vida não é um mar de rosas, sei que por mais mar que nos separe as rosas que vos mando chegarão sempre.

Deixo aqui um texto que vale a pena ler e sobre ele reflectir. A emigração não é um capricho, não é individualismo, egoísmo. A emigração é a rejeição da indignidade.


Não sei, meu filho, como te vai correr a vida, agora que foste à procura de emprego fora de Portugal. Nem a todos os teus amigos que estão no Brasil, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, China, Angola e Moçambique. Sei somente que a tua geração se preparou, esforçou, estudou, trabalhou arduamente para ter um futuro diferente deste. Sei também que houve gerações antes da vossa que lutaram, sofreram, morreram para que este país fosse diferente e que não mais os seus cidadãos tivessem de emigrar para poderem ganhar a vida condignamente.
Sim, eu sei que a tua geração está mais bem preparada e é muito mais cosmopolita do que aquelas que emigraram nas décadas anteriores. O mundo para vocês não é algo desconhecido e que atemoriza. E sei que há muita gente que defende que esta emigração é excelente, porque vos coloca perante outras realidades profissionais, vos permite criar uma realidade internacional de contactos e vos possibilita experiências que vos tornarão não só melhores especialistas nas vossas áreas como cidadãos do mundo.
Contudo, todos nós deveríamos ter o direito de viver no país onde nascemos. Emigrar por vontade e decisão é uma coisa, emigrar por necessidade e obrigação é outra muito diferente. Mas foi aqui que chegámos de novo: um país que não consegue criar empregos para os seus melhores ou que lhes oferece €700 euros por mês, que forma investigadores e cientistas em catadupa, mas que depois não lhes proporciona emprego nas empresas nacionais, que investe fortemente através dos seus impostos na formação altamente qualificada dos seus jovens e depois os deixa partir sem pestanejar para colocarem os seus conhecimentos ao serviço de outros países.
Sei ainda mais. Sei que vocês não deixam cá mulher (ou marido) e filhos. Vão constituir família nos países para onde foram obrigados a partir, ter filhos por aí, criar raízes noutras latitudes e com outras nacionalidades, o que tornará o regresso bastante mais difícil. Além disso, com a situação económica e etária que o país vive, este vai lenta e melancolicamente afundar-se com uma população de pobres, velhos e doentes, o que obviamente não atrai nem a energia nem a alegria dos jovens, nem o desejo de voltarem a viver por cá. Vocês voltarão algumas vezes pelas férias, mas a vossa vida será definitivamente nos países que vos acolheram e recompensam condignamente o vosso trabalho.
Vocês continuarão ligados a Portugal e vão até valorizar tudo o de bom que existe neste país, esquecendo a mediocridade, a inveja, a avidez, a corrupção, a luxúria, as desigualdades, a burocracia, a incompetência, o desrespeito por reformados, doentes e desempregados. Tentarão saber notícias pela net, ler livros em português, ver algum jogo de futebol nos computadores, enfim, sentirão vontade de estar mais ou menos a par do que por cá se vai passando. Mas pouco a pouco a distância, as exigências profissionais, os compromissos familiares vão sobrepor-se e vocês ir-se-ão distanciando do país e integrando cada vez mais noutras realidades, perante a indiferença da classe política e o incentivo do primeiro-ministro, que desconhece que um país que perde os seus melhores só pode ter um futuro sombrio à espera.
Parafraseando Jorge de Sena, que foi obrigado a exilar-se e sempre sentiu enorme raiva por isso, não sei que mundo será o teu, mas é possível, porque tudo é possível, que seja aquele que desejo para ti. Mas queria que fosses tu a escolhê-lo e não que te obrigassem a emigrar. E isso dói. A ti, a mim, à tua família, aos teus amigos. E devia doer, e muito, ao teu país.

21 Setembro 2013, Nicolau Santos, Suplemento "Economia", Jornal Expresso.