Vinte e dois de Novembro de dois mil e treze. A neve chegou a Lyon. Com ela o frio cada vez mais sufocante. A sua beleza, à qual muitos não estão habituados, como eu, traz por vezes um rasgo de alegria e afasta os pensamentos mais frios. Aqui ela cai, uns dias mais envergonhados que outros, uns dias mais intensos que outros. Todos esses dias estarei aqui eu a vê-la cair, com um coração por vezes aquecido pela sua beleza, por vezes arrefecido pela saudade.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
Oui, c'est ça
Dez de Novembro de dois mil e treze. A vida tem destas coisas. Vamos para o estrangeiro, conhecemos gente nova. Muita gente. E eu, que no meio disto, habito com duas pessoas muito especiais; muito pessoas. A convivência com os outros é a melhor fonte de conhecimento durante toda a vida. Com elas aprendemos o que é isto da vida, aprendemos a vivê-la e ajudamos a vivê-la. Aprendemos que a partilha é a coisa mais bela deste mundo. Aprendemos que ela nos faz humanos. Aprendemos que realmente aquela ideia desesperada de que existe um deus, não passa de uma ideia desesperada se soubermos viver com o outro.
Aprendemos com isto que o mundo é tão mais diverso do que qualquer dias poderemos experiênciar. E por estes caminhos encontrei e fiz amizades com as pessoas mais interessantes. Inclusive uma das pessoas com quem moro, um alemão de vinte e cinco anos, que faz tarot todas as manhãs, que estuda literatura do século dezoito sobre masturbação; um ser humano cheio de vontade de partilha e de generosidade. No meio disto submeti-me à experiência do tarot. Materialista que sou não acredito em sinais transcendentes, mas já agora partilho esta curiosidade para aqueles que possam acreditar ou, não acreditando, estejam sempre abertos àquilo que é novo. É nisto que se resume a vida.
A
primeira carta, será aquilo que represento para os outros. Um sinal
exterior. A segunda carta, aquilo que representa a minha alma. A terceira carta, caracteriza o meu ano.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Adieu
Ninguém fica indiferente à beleza. É humano. Que tipo de beleza, aí já não sei. A mim a beleza que mais me toca é a das palavras, das letras conjugadas. Mais depressa chorarei com uma frase do que com uma música, um filme, um quadro. Não há beleza como esta, a das palavras.
Aqui partilho a beleza dada à luz por um génio e que, como tudo de bom que há na vida, é criminoso não partilhar. Espero, assim, que sintam este texto tanto como eu. Espero que tenham, verdadeiramente, esse prazer.
E se assim escreve quem está em demência, não seria este um mundo tão mais belo se todos dementes estivéssemos?
Boa noite, e vivam, vivam bem esta vida.
Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou
uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida,
possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o
que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que
significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto
que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando
os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando
os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.
Se
Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu
corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu
tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o
sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um
poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que
ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a
dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus
meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia
sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada
homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.
Aos
homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se
apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de
se apaixonar.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas
coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no
cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de
subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua
pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para
sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima
para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas
as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir
muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente
estarei a morrer.
A carta de despedida, de Gabriel García Marquéz
terça-feira, 5 de novembro de 2013
Lyon (revisitée)
Quatro de Novembro de dois mil e treze. Revisitou-se Lyon, pela terceira vez. E não cansa. Sempre se encontra algo novo, uma outra rua, uma outra cara que por nós passa, uma outra casa. Uma árvore não vista, um café, uma curva, uma pedra. Um muro que passou, uma fonte que deixou de estar calada, uma brisa que se encontrou connosco.
Lyon, essa, será eterna, assim como as suas paragens. Eterna não será a forma como para ela se olha. A cada vez, olha-se com olhos de olhar, depois de ver, de reparar. Depois com olhos de atenção, de ternura, de curiosidade, perplexidade, leviandade. Tudo depende.
E se quatro olhos vêem melhor que dois, diferentes olhos nunca vêem o mesmo. Diferentes pessoas nunca cheiram o mesmo. Aquele folhado acabado de fazer cujo cheiro passa naquele preciso momento já é diferente daquele que passará um segundo depois. Cada experiência é, por isso, única. Cada passo é um passo que jamais voltaremos a dar e que ninguém dará como nós demos. Cada cidade é diferente e igual ao mesmo tempo. Cada riso de amizade, cada gole de cerveja, cada garfada, cada abraço. É tudo único e sem exemplar. Cada experiência é inicio, desenvolvimento e conclusão. Mas não é por isso que deve deixar de ser partilhada.
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