quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Carta a um filho que emigrou

Porque tudo isto não é uma viagem de recreio. É, antes, um estágio para a emigração, o que aqui faço. Um aquecimento antes de um exercício que se prevê duro, mas sem alternativas. Porque a vida não é um mar de rosas, sei que por mais mar que nos separe as rosas que vos mando chegarão sempre.

Deixo aqui um texto que vale a pena ler e sobre ele reflectir. A emigração não é um capricho, não é individualismo, egoísmo. A emigração é a rejeição da indignidade.


Não sei, meu filho, como te vai correr a vida, agora que foste à procura de emprego fora de Portugal. Nem a todos os teus amigos que estão no Brasil, Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, China, Angola e Moçambique. Sei somente que a tua geração se preparou, esforçou, estudou, trabalhou arduamente para ter um futuro diferente deste. Sei também que houve gerações antes da vossa que lutaram, sofreram, morreram para que este país fosse diferente e que não mais os seus cidadãos tivessem de emigrar para poderem ganhar a vida condignamente.
Sim, eu sei que a tua geração está mais bem preparada e é muito mais cosmopolita do que aquelas que emigraram nas décadas anteriores. O mundo para vocês não é algo desconhecido e que atemoriza. E sei que há muita gente que defende que esta emigração é excelente, porque vos coloca perante outras realidades profissionais, vos permite criar uma realidade internacional de contactos e vos possibilita experiências que vos tornarão não só melhores especialistas nas vossas áreas como cidadãos do mundo.
Contudo, todos nós deveríamos ter o direito de viver no país onde nascemos. Emigrar por vontade e decisão é uma coisa, emigrar por necessidade e obrigação é outra muito diferente. Mas foi aqui que chegámos de novo: um país que não consegue criar empregos para os seus melhores ou que lhes oferece €700 euros por mês, que forma investigadores e cientistas em catadupa, mas que depois não lhes proporciona emprego nas empresas nacionais, que investe fortemente através dos seus impostos na formação altamente qualificada dos seus jovens e depois os deixa partir sem pestanejar para colocarem os seus conhecimentos ao serviço de outros países.
Sei ainda mais. Sei que vocês não deixam cá mulher (ou marido) e filhos. Vão constituir família nos países para onde foram obrigados a partir, ter filhos por aí, criar raízes noutras latitudes e com outras nacionalidades, o que tornará o regresso bastante mais difícil. Além disso, com a situação económica e etária que o país vive, este vai lenta e melancolicamente afundar-se com uma população de pobres, velhos e doentes, o que obviamente não atrai nem a energia nem a alegria dos jovens, nem o desejo de voltarem a viver por cá. Vocês voltarão algumas vezes pelas férias, mas a vossa vida será definitivamente nos países que vos acolheram e recompensam condignamente o vosso trabalho.
Vocês continuarão ligados a Portugal e vão até valorizar tudo o de bom que existe neste país, esquecendo a mediocridade, a inveja, a avidez, a corrupção, a luxúria, as desigualdades, a burocracia, a incompetência, o desrespeito por reformados, doentes e desempregados. Tentarão saber notícias pela net, ler livros em português, ver algum jogo de futebol nos computadores, enfim, sentirão vontade de estar mais ou menos a par do que por cá se vai passando. Mas pouco a pouco a distância, as exigências profissionais, os compromissos familiares vão sobrepor-se e vocês ir-se-ão distanciando do país e integrando cada vez mais noutras realidades, perante a indiferença da classe política e o incentivo do primeiro-ministro, que desconhece que um país que perde os seus melhores só pode ter um futuro sombrio à espera.
Parafraseando Jorge de Sena, que foi obrigado a exilar-se e sempre sentiu enorme raiva por isso, não sei que mundo será o teu, mas é possível, porque tudo é possível, que seja aquele que desejo para ti. Mas queria que fosses tu a escolhê-lo e não que te obrigassem a emigrar. E isso dói. A ti, a mim, à tua família, aos teus amigos. E devia doer, e muito, ao teu país.

21 Setembro 2013, Nicolau Santos, Suplemento "Economia", Jornal Expresso.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Cent jours

Vinte e três de Outubro de dois mil e treze. Começa hoje, precisamente, a contagem decrescente dos cem dias que faltam para regressar a Portugal. Aparentemente faltará muito, mas concretamente não sei. É uma miscelânea de sentimentos, de uma nostalgia que se reparte para os dois lados. E uma saudade que passará para onde agora reside a presença. É um sentimento normal, eu creio. Não me posso limitar a pensar que devo aproveitar agora porque depois vou ter saudades. Metade da frase está certa. Devo aproveitar agora. Mas pelo simples facto de aproveitar. Não porque depois terei saudades. As saudades não se avaliam em termos absolutos, mas sim relativos. Não é como um crédito ou um talão de desconto que temos de utilizar naquele dia porque senão caduca.
É hoje também o aniversário da morte do poeta francês Théophile Gautier. Assim, será por bem presentear com um poema seu, e deixar que os cem dias se vivam sem angústias.

Far-niente

Quand je n’ai rien à faire, et qu’à peine un nuage
Dans les champs bleus du ciel, flocon de laine, nage,
J’aime à m’écouter vivre, et, libre de soucis,
Loin des chemins poudreux, à demeurer assis
Sur un moelleux tapis de fougère et de mousse,
Au bord des bois touffus où la chaleur s’émousse.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Chez le consulat


 Vinte e um de Outubro de dois mil e treze. Pois é, a hora tinha de chegar. Português no estrangeiro tem de ir ao consulado. Até me senti um emigrante. O consulado português em Lyon situa-se perto da estação de metro Masséna. A direita, vemos logo que estamos em zona portuguesa: uma bandeira avista-se ao fundo, sinalizando um café, e mesmo em frente ao consulado uma drogaria que mesmo os mais distraídos podem ver que é portuguesa.
Entrei. Receoso, não sabia se havia de falar português ou francês. Atrás ouço: ora, boa tarde! E o idioma ficou logo decidido. Estava em Portugal. Soube muito bem. Pela primeira vez em dois meses entrei num sitio onde nos corredores se falava português.
Se às vezes pensamos que os clichés dos emigrantes em França podem ser fantasiados, eu hoje vi que não. O fato de treino estava lá, assim como a sapatilha. O bigode estava lá. O fio de outro também, e o crucifixo. As famílias numerosas que se acompanham para todo o lado. A humildade nos olhos, essa sim, também la estava. A tão querida humildade portuguesa que por vezes tanto falta aos franceses. O cabelo penteado para o lado e um bocadinho de gel, também lá estava. O batom vermelho e pastilha na boca. A desinibição e ausência de cerimónias. Da janela do consulado, avistava-se a loja a vender A Bola e cerveja Sagres.
E o idioma lusofrancês? Também. Falas com o teu marido e explicas-lhe isto que ele faz logo o rapprochement. Isto agora só amanhã, pour les nove horas de la matin. Número quarante quatre, está? Ah pois, c'est sûr, não podemos fazer d'autre façon.
Soube bem, uma pitada de Portugal quando se almoça todos os dias francês.

domingo, 13 de outubro de 2013

Les chemins

Treze de outubro de dois mil e treze. Caminhos de domingo à tarde, vazios, mas cheios de sensações. O cheiro a humidade, a folhas e árvores, a estradas caminhadas. Aparentemente vazia, Lyon surpreende-nos por vezes com algum Club de thé ou alguma boulangerie ainda aberta, resistente à inércia. Lá nos contempla com o cheiro a um pain au chocolat, a um brioche, um pain aux raisins, portanto, as viennoiseries de Lyon.
Enquanto isso, as brisas mais frias vão aparecendo. As mãos vão-se aquecendo umas às outras. Nestes instantes, há que aproveitar para desfrutar de uma esplanada. Na companhia, é certo, de uma Noisette e de uma tarte aux chocolat, sem esquecer um bom livro e os amigos de sempre.






sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Je t'aime

Sempre. Porque as ausências são feitas de saudade, a minha saudade espera que termine a tua ausência. Dizem que a saudade é um sentimento muito português. Tu me manques, poderia dizê-lo. Mas a palavra saudade só alguns têm a possibilidade de a sentir verdadeiramente. Nunca sete letras me fizeram tanta angústia, é certo. No entanto, certo também é que a saudade é boa de viver, e de matar.
Aguardo a passagem dos dias como se fossem anos, mas mesmo que anos fossem, esperá-los-ia por ti.
Por agora, aguardo com ânsia que esta folha perca o significado e que as próximas letras sejas tu a escrevê-las.




domingo, 6 de outubro de 2013

C'est la vie

Seis de Outubro de dois mil e treze. Por vezes, queríamos que a vida fosse fácil como o Windows a propõe:


 Penso, no entanto, que assim a vida não seria vida. Retive uma frase que o meu pai me disse quando um dia, pouco depois de eu chegar a Lyon, lhe liguei a desabafar. "A vida não é só facilidades", disse ele. Penso nesta frase todos os dias, sem excepção, porque todos os dias são um desafio. Foi uma frase que fixei e que ajudou a levantar a cabeça. Não posso ver-me constantemente no conforto e na previsibilidade, na conformação até. Este objectivo, pelo menos, penso já ter atingido, ou pelo menos vou atingindo cada dia.
Percebemos a insignificância das nossas problematizações que, no entanto, para nós não são pequenas. Cada pessoa existe na medida da sua própria dimensão, e isto serve para o bem e para o mal.
A vida sabe bem melhor quando temos problemas e os resolvemos, quando temos objectivos e os atingimos, quando temos sonhos que perseguimos, não interessando se os realizamos. 

Nem toda a gente tem um pai ou uma mãe a quem ligar, ou uma avó que telefona vinte e três horas por dia, uma tia que faz skype connosco todas as semanas, uma prima pela qual comecei a escrever este blog, uma irmã que sabemos estar a pensar em nós constantemente, ou uma namorada com a qual nos deitamos todos os dias dentro do seu coração . Isto, assim, retira de qualquer um o conceito de problema que alguém possa ter. É uma complexidade, e uma pequena pedra no sapato, no máximo.
O tempo aqui vai passando, com mais ou menos chuva, mas com a constante mais-valia de conhecer as pessoas que aqui conheci e que espero vir a conhecer, das experiências que vivi, vivo e espero viver.
O tempo vai passando, assim, da melhor forma e eu deito-me, todos os dias, feliz como este por do sol que tenho o privilégio de vislumbrar cada tarde:




 

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lyon vers Genève: aller-retour

De vinte e oito de Setembro a dois de Outubro. A hora tão esperada pelas minhas fãs, que andarão na casa dos milhares; a hora da actualização do blog.
Peço desculpa o desleixo, que não será mesmo desleixo porque realmente nesta cidade há sempre algo a fazer (a comer, a visitar, a ouvir, a ler...). Foi também uma espera por acontecimentos que valham a pena ser relatados aqui, porque acontecimentos há muitos.
Pois é, o Papá chegou. Logo no dia seguinte partimos rumo a Genève (Genebra), na Suiça, para desfrutar de um óptimo fim-de-semana. Duas bicicletas para visitar a cidade, tudo se tornou mais fácil. É uma cidade pequena, é certo, mas encantadora e acolhedora. A gastronomia, essa, não me impressionou. Fraca oferta e preços altos (muito altos). A quem puder, que dê lá um salto, não se irá arrepender, sendo certo, porém, que deverá consultar a meteorologia pois a chuva é uma visitante assídua de Genebra nestas alturas. Facto curioso: a nossa residência ficava precisamente no meio da fronteira entre Suiça e França, uma vez que os arredores de Genève abrangem território francês. Assim, tanto podiamos tomar banho em França e dormir na Suiça, como ir de França à Suiça em segundos.
Regressados, há que revisitar Lyon, apreciar o já apreciado, ver o que foi olhado, e reparar no que já foi visto. E também o que não foi visto. É certo que se encontra sempre algo de novo, eu encontrei.
Vou deixar fotos e, espero, vontade de visitar estes sítios maravilhosos.



Estacionamento de bicicletas - Gare de Cornavin

Genève, centro

Lago Léman


Jet d'eau


Residence Genève

Rue de la Terrassiére



Catedral de Saint-Pière



Zona do Palácio das Nações

Musée Ariana



Vista a partir da Notre-Dame de Fourvière

12ª Exposição bianual de Lyon


Vieux Lyon





Rio Saône

L'Epicerie (revisitada)