Vinte e um de Outubro de dois mil e treze. Pois é, a hora tinha de chegar. Português no estrangeiro tem de ir ao consulado. Até me senti um emigrante. O consulado português em Lyon situa-se perto da estação de metro Masséna. A direita, vemos logo que estamos em zona portuguesa: uma bandeira avista-se ao fundo, sinalizando um café, e mesmo em frente ao consulado uma drogaria que mesmo os mais distraídos podem ver que é portuguesa.
Entrei. Receoso, não sabia se havia de falar português ou francês. Atrás ouço: ora, boa tarde! E o idioma ficou logo decidido. Estava em Portugal. Soube muito bem. Pela primeira vez em dois meses entrei num sitio onde nos corredores se falava português.
Se às vezes pensamos que os clichés dos emigrantes em França podem ser fantasiados, eu hoje vi que não. O fato de treino estava lá, assim como a sapatilha. O bigode estava lá. O fio de outro também, e o crucifixo. As famílias numerosas que se acompanham para todo o lado. A humildade nos olhos, essa sim, também la estava. A tão querida humildade portuguesa que por vezes tanto falta aos franceses. O cabelo penteado para o lado e um bocadinho de gel, também lá estava. O batom vermelho e pastilha na boca. A desinibição e ausência de cerimónias. Da janela do consulado, avistava-se a loja a vender A Bola e cerveja Sagres.
E o idioma lusofrancês? Também. Falas com o teu marido e explicas-lhe isto que ele faz logo o rapprochement. Isto agora só amanhã, pour les nove horas de la matin. Número quarante quatre, está? Ah pois, c'est sûr, não podemos fazer d'autre façon.
Soube bem, uma pitada de Portugal quando se almoça todos os dias francês.

Exatement, já te tinha dito que c'est comme ça!
ResponderEliminarMuito bem escrito, com muita ironia à mistura...
Não diria ironia, talvez sarcasmo. É saudável saber criticar o que é nosso ou aquilo do qual fazemos parte, mas também valorizar. Foi um pequeno episódio engraçado que tê-lo-ia sido mais se não tivesse de pagar vinte euros por uma certidão de nascimento. Pormenores.
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