sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Adieu

Ninguém fica indiferente à beleza. É humano. Que tipo de beleza, aí já não sei. A mim a beleza que mais me toca é a das palavras, das letras conjugadas. Mais depressa chorarei com uma frase do que com uma música, um filme, um quadro. Não há beleza como esta, a das palavras.
Aqui partilho a beleza dada à luz por um génio e que, como tudo de bom que há na vida, é criminoso não partilhar. Espero, assim, que sintam este texto tanto como eu. Espero que tenham, verdadeiramente, esse prazer. 
E se assim escreve quem está em demência, não seria este um mundo tão mais belo se todos dementes estivéssemos? 
Boa noite, e vivam, vivam bem esta vida.

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jogar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.
  
A carta de despedida, de Gabriel García Marquéz

1 comentário:

  1. Lindo, sem dúvida, tanto mais tendo em conta a situação em que o escritor se encontra e como se sente"uma marioneta de trapos". Tens de ler forçosamente "Cem anos de solidão". O livro aguarda-te, pacientemente...

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